liberto num deserto de água
publicado por gUi
Algo aconteceu comigo, e pode ser só impressão minha, depois desse trabalho último que desenvolvi e expus na Casa Tomada.
Conquistei uma liberdade comigo mesmo pra fazer alterações no tratamento antes moralmente inpensáveis. Sempre alterei as cores, isso não foi novo, também nunca tive problemas em alterar pequenos gravetos no chão, escolher qual sujeira limpar e qual deixar. O desenho sempre esteve presente no tratamento das imagens que eu faço, seja na escultura das cores, seja na acentuação ou atenuamento das manchas. Mas em uma imagem específica eu avançei um sinal. eu alterei a posição do único personagem presente, aquele sobre o qual eu me projeto.
Senti isso como uma traição, eu traí o Barthes. O ‘isso aconreceu’ não valia mais praquela imagem. O cara nunca esteve parado diante de mim, o cara corria. Entrei numa crise de consciência, uma culpa tal que eu só conseguia conversar disso com as pessoas. Voltar atrás era impensável. Era importante falar a verdade, nem que pra isso eu precisasse mentir. Se aquilo não aconteceu no mundo, aquilo aconteceu em mim, e era com esse acontecimento que eu devia lealdade.
A Sílvia Mecozzi, numa visita que fez à Casa, me disse uma hora, no meio da minha aflição: quem disse que o que vc faz é fotografia? isso é um rótulo de mercado, você não precisa abraçar.
Mas se eu não for mais fotógrafo, vou ser o quê? Ao assumir a possibilidade de uma intervenção dessas na imagem, ao emoldurar um texto numa exposição ao invés de uma foto, eu me liberto e ao mesmo tempo me isolo, inexoravelmente.



Comentários
Mas não deve ser um isolamento solitário. Seria mais uma espécie de distinção, certo? Positiva, ao meu ver.
Difícil imaginar um isolamento sem solidão. Não seria seu antídoto, o contato, a comunhão, a troca?
mas talvez vc tenha razão: o inexorável pode ser meio exagero.
e obrigado pelo positiva. Eu não tenho juízo sobre isso.
Abraço
Além de fotógrafo, ou acima de fotógrafo, você é artista e expressa algo que tá dentro de você, e por isso não acho que o isolamento seja solitário. A troca continua existindo e até cresce, e quebra a barreira dos rótulos. E isso que é positivo!
Abraço
Oi Gui, demorei mais passei para ler “liberto num deserto de água”…imagino a crise, estranho são os que sempre se imaginaram artistas, afinal um trabalho não deve nascer da vontade de se fazer arte. Uma coisa é certa processos devem ser transparentes, muito obrigado por dividir o seu!
“traí Barthes”… este é o texto mais gUimohalliano que eu já li!
já passei [rapidamente] por isso com a photo, mas hoje estou mais com a simonetta: se editam o meu texto, por que não posso editar suas photos? hein?
editar também é fotografar, ainda que seja pós-fotograficamente falando.
algo assim.